Bolsonaro: cepa de 64 segue viva em 2011

Reproduzo artigo de Saul Leblon, publicado no sítio Carta Maior*:

Não deve ser negligenciada a coincidência entre o aniversário dos 47 anos do golpe militar de 1964 e o vomitório homofóbico-racista despejado pelo deputado Jair Bolsonaro (PP), nas últimas semanas.

Em entrevistas e declarações a diferentes veículos, ele adicionou mais algumas pérolas a sua robusta coleção de ataques aos direitos humanos, cujo usufruto, na visão sombria de mundo desse ex-capitão reformado do Exército brasileiro, deveria ser vetado aos negros, aos homossexuais, os índios, os comunistas, socialistas, os pobres e, possivelmente, também, aos deficientes físicos.

Bolsonaro tinha apenas 12 anos de idade quando ocorreu o golpe que instaurou a ditadura militar de 1964. Mas sua formação na Academia de Agulhas Negras ocorreu exatamente durante os anos de chumbo, tendo deixado a carreira em 1988 (fim do regime) para se transformar no único parlamentar brasileiro que defende abertamente o golpe de abril de 1964.

Bolsonaro tem sido tratado pela mídia conservadora como uma excrescência. Um ponto fora da curva. Um excesso. Um palavrão deselegante na narrativa garbosa do conservadorismo nativo em nosso tempo. De fato, o deputado professa de forma desabrida e truculenta um relicário de anticomunismo, racismo, elitismo, defesa da tortura (hoje em interrogatório de presos comuns…) e mesmo da pena de morte.

Assim apresentado, parece mais uma caricatura inofensiva do folclore político nacional. Um Tiririca da Tortura. Será?

Em primeiro lugar, cumpre reconhecer que o ex-capitão exerce o seu 6º mandato. Logo, tem adeptos fiéis. Conta com financiadores perseverantes. Ademais, vocaliza alinhamentos nada exóticos em relação a outros temas, quando recebe menos espaço na mídia, mas cumpre igual papel de perfilar entre os que erguem pontes de atualização do programa e dos interesses que produziram 1964.

Vejamos. Bolsonaro, a exemplo de próceres da coalizão demotucana (caso do senador Agripino Maia, hoje presidente dos Demos e de Artur Virgílio, ex-lider do PSDB) é esfericamentre contra o programa Bolsa Família, que garante uma transferencia de renda a 50 milhões de brasileiros mais pobres.

No seu entender, trata-se, aspas para o capitão: “um projeto assistencialista, de dinheiro de quem trabalha, de quem tem vergonha na cara, para quem está acostumado à ociosidade”. Vamos falar sério. O linguajar pedestre condensa para o nível da caserna aquilo que sofisticados economistas e ‘consultores’ dos mercados financeiros apregoam diariamente como plataforma para a racionalização do capitalismo tupiniquim. Como tal são incensados pelos colunistas, editorialistas e ventríloquos instalados na mídia conservadora que cumprem assim a função de trazer para o ambiente do século XXI aquilo que foi cimentado pelo udenismo, pela repressão e pela censura nos anos de chumbo, aqui e alhures.

Na campanha presidencial de 2010, certos alinhamentos ganharam vertiginosa transparência como acontece sempre que se decide o passo seguinte da história.

Enquanto o jornal Folha de São Paulo e o candidato Serra tentavam sedimentar uma imagem de terrorista e abortista para a então candidata Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro, com a rude transparência daqueles a quem é reservado o trabalho dos porões, foi aos finalmentes.

Num comício de Dilma no Rio, o parlamentar pendurou três faixas em postes da Cinelândia. “Dilma, ficha suja de sangue”; “Dilma, cadê os 2,5 milhões de dólares roubados do cofre do Adhemar” e “Lula, vá para o Mobral. Dilma, para o Bangu Um”.

Na verdade, o homofóbico deputado apenas fazia uma suíte, a seu modo, da ficha falsa de Dilma construída pela Folha de SP em mais uma demonstração do jornalismo isento…(e que até hoje não se retratou).

Dava incômodos decibéis, igualmente, ao empenho da esposa do tucano José Serra, a bailarina Mônica Serra, que em corpo-a-corpo na Baixada Fluminense, em 14 de novembro de 2010, vociferou autoritariamente ao vendedor ambulante Edgar da Silva, de 73 anos: “Ela é a favor de matar as criancinhas”, insinuando o apoio de Dilma à legalização do aborto. Seria cansativo rememorar outros alinhamentos do período expressos, por exemplo, por setores de extrema direita da Igreja Católica e por ‘jovens’ revelações dessa mesma cepa ideológica, como o candidato a vice de José Serra, Índio da Costa, um bolsanarinho versão ‘mauricinho carioca’.

Bolsonaros, Fleurys, Erasmos Dias, Curiós, Virgílios, Agripinos, Rodrigos Maia, ACMs netos, Índios da Costa e Carlos Lacerdas nunca prosperam num vazio de conteúdo histórico. Em certos momentos, como agora, incomodam à elite conservadora ao personificarem com alarido e crueza as linhas de passagem que promovem o aggiornamento, para os dias atuais, dos interesses e valores que fizeram o golpe de 32 em SP; o golpismo que levou Getúlio ao suicídio em 54, a tentativa de impedir a posse de JK em 56, a quartelada contra a posse de Jango em 62, a ditadura 64 e a tentativa de impeachment de Lula em 2005.

Mas assim como as tardes quentes do turfe requisitam chapéus esvoaçantes e blazers de linho delicado, também é forçoso cevar e tolerar os relinchos dos potros selvagens nas estrebarias. É dessa cepa que sairão as manadas decisivas para limpar e ocupar o terreno quando for a hora, de novo.

* extraído do Blog do Miro: http://altamiroborges.blogspot.com/2011/04/bolsonaro-cepa-de-64-segue-viva-em-2011.html

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Dia Internacional da Mulher.

No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve.

Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho:  redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.

Em 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem aos fatos ocorridos em 1857.

Portanto o dia em que rendemos homenagens a todas as mulheres é como data,  instituída a partir das lutas e reivindicações das trabalhadoras nos EUA.

Podemos nos questionar a respeito de qual  é a “essência” da mulher? a mulher frágil e fútil presente nos meios de comunicação de massa? ou a companheira, mãe, amiga, colega de trabalho, que vemos no dia-a-dia?

A fragilidade da mulher não deve ser confundida com um defeito, é uma forma de adaptação e acima de tudo uma ação política frente a realidade de um mundo ainda pautado no machismo que herdamos da sociedade patriarcalista de tempos imemoriais.

Lembremos nesse dia, os avanços conquistados pelas mulheres a partir das lutas: Direito ao voto, fim do pátrio poder, ampliação na participação política.

Sabemos, e nossas companheiras sabem o verdadeiro papel da mulher na sociedade brasileira. Cresce o número de famílias onde a mulher exerce o papel de provedora. Nos postos de trabalho aumenta sua participação.

Há uma série de conquistas a serem realizadas, entretanto hoje temos que comemorar e parabenizar a todas as mulheres.

Parabéns companheiras, em especial  a minha mãe Dona Ana e à Nairah Pires meu amor.

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CCJ aprova regulamentação da profissão de historiador

A regulamentação da profissão de historiador foi aprovada, nesta quarta-feira (2), pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). A proposta, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), estabelece que a profissão de historiador poderá ser exercida pelos diplomados em curso de graduação, mestrado ou doutorado em História.

Entre as atribuições dos historiadores, o projeto (PLS 368/09) lista o ensino da disciplina no ensino básico e superior; o planejamento, a organização, a implantação e a direção de serviços de pesquisa histórica; o assessoramento voltado à avaliação e seleção de documentos para fins de preservação.

A proposta já havia sido aprovada em decisão terminativa, em março de 2010, pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS). Mas a aprovação de emenda de Plenário do senador Alvaro Dias (PSDB-PR) e de requerimentos dos senadores Flexa Ribeiro (PSDB-PA) e do então senador Flávio Arns (PSDB-PR) fez a matéria retornar à CAS, bem como exigiu sua análise pela CCJ e pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE).

Relator do projeto na CCJ, Flexa Ribeiro recomendou sua aprovação com o acolhimento da emenda de Alvaro Dias. A mudança proposta em Plenário simplificou uma das atribuições dos historiadores para a “organização de informações para publicações, exposições e eventos sobre temas de História”. O texto aprovado pela CAS detalhava os locais (empresas, museus, editoras, produtoras de vídeo e CD-ROM ou emissoras de televisão) de realização dessa atividade.

– O texto original do inciso que se pretende alterar era excessivamente detalhista e enumeratório, o que depõe contra a generalidade, clareza e precisão da norma – explicou Flexa Ribeiro em seu parecer.

O relator reconheceu o “relevante” papel exercido pelos historiadores na sociedade e considerou que a inexistência de uma regulamentação pode abrir esse campo a profissionais de outras áreas sem as qualificações necessárias para desenvolver um trabalho adequado com objetos e assuntos históricos.

Iara Farias Borges e Simone Franco / Agência Senado

fonte: http://www.senado.gov.br/noticias/verNoticia.aspx?codNoticia=107736&codAplicativo=2

 

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Lançamento de “Marx: Atualidade e Controvérsia”

Lançamento de “Marx: Atualidade e Controvérsia” 1

1 Este texto foi extraído do portal vermelho: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=3844&id_coluna=14

Diorge Konrad *

Muitos têm defendido, com novos argumentos, uma velha tradição: a da História como conhecimento do passado. Outros, juntamente com cientistas sociais, reivindicam a incognoscibilidade do mundo atual. Há ainda os que reforçam parte da décima primeira das Teses contra Feuerbach de Karl Marx (1982): apenas a interpretação do mundo. Em diversos intelectuais coexistem variadas formas de discurso relativista ou agnóstico, com similaridade a um caleidoscópio.

Contra o marxismo, argumenta-se que sua crise se deu pelo fato de “novos” movimentos sociais, constituídos por outros agentes de transformação e por reivindicações diferenciadas e cotidianas, terem tomado o lugar do movimento operário na luta pelas transformações sociais. Ademais, o paradigma marxista sofreria de uma falência estrutural, agravada pela queda do Muro de Berlim e o declínio dos países socialistas, em especial pelo fim da URSS, o que permitiria considerar a crise teórica uma ampliação da crise política.

Outra crítica dirigida ao marxismo e a História como ciência refere-se à impossibilidade de se construir conhecimento a partir da ideia de totalidade dialética. Fundamentam-na os paradigmas do “irracionalismopós-moderno” ou do pós-estruturalismo e algumas correntes da chamada Nova História, a partir da afirmação da pós-histoire. Seu enfoque centra-se no simulacro, na representação, na fragmentação e no micro, na análise do discurso e do simbólico, negando, em alguns casos, a existência da realidade como um pressuposto externo ao pensamento dos homens.

Parte deste debate, presente no Seminário “Marx: atualidade e controvérsia”, ocorrido na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 2008, e o resultado das conferências, em obra organizada pelo cientista social João Vicente R. B. Costa Lima, acaba de ser editado pela UNISC, editora da Universidade de Santa Cruz do Sul.

No livro, os artigos “Problematizando uma sedução discursiva antimarxista: pós-estruturalismo e atualidade do marxismo”, do historiador Diorge A. Konrad, “A atualidade de ‘O Capital’ – 140 anos depois”, com autoria do economista Sérgio Alfredo Massen Prieb, “Do ideário de Marx às práticas socialistas: desvio doutrinário ou decorrência lógica?”, escrito pelo cientista social Reginaldo Prerez, “Explicação e paixão em Marx”, do também cientista social João Vicente Costa Lima, e “Marx e a violência revolucionária: problemas e conseqüências morais e políticas” do professor de filosofia de Ricardo Bins di Napoli, adentram em um debate acadêmico de defesa e de crítica de Marx, no qual, como diz o organizador da obra. “o maior legado de seu pensamento talvez seja, assim, o de descentrar os críticos e simpatizantes dos lugares seguros de interpretação, gerando um estímulo formidável: parecer a uns possibilidade real de compreensão e a outros um compêndio de ideias fora de lugar, mantendo-se sempre, porém, como um sistema de pensamento que continua a nos estimular com grande intensidade até os dias de hoje”,

Discussões como estas estimulam o interesse sobre as razões e os significados da crise vivenciada na atualidade. Fala-se em globalização, mas regionalismos e nacionalismos têm ganhado força, expondo os localismos em contraposição à “mundialização” dos mercados. O local e o global redimensionam-se. A fome, as drogas, a AIDS, as questões ambientais, a energia nuclear, a questão agrária, a questão urbana, a questão indígena, a miséria, o desemprego e tantas outras questões seguem devastando populações e exércitos de trabalhadores, apesar das novas tecnologias e do intercâmbio entre as diversas partes do mundo. Entretanto, mesmo com o excepcional desenvolvimento do conhecimento e a modificação nas formas produtivas, permanecem as relações de dominação do capital sobre o trabalho.

Como explica Virgínia Fontes (2007, p. 12-3), “a concorrência internacional em que foram lançados os trabalhadores, encapsulados em seus espaços nacionais nos quais não encontravam mais amparo no direito, foi a mais poderosa – e violenta – forma para tentar exterminar com o ‘mundo (dos direitos) do trabalho’”. Para tanto, segue a autora, “o mundo dos trabalhadores organizados deveria fragmentar-se sob a pressão do capital, este a cada dia mais organizado no plano internacional”. Assim, “a organização voltada para o capital não tem como objetivo uma vida social menos caótica, menos dramática e destrutiva”, mas, ao contrário, visa “[à] imposição da desregulamentação de direitos do trabalho em escala internacional”, significando “o estabelecimento de uma legislação do e para o capital, em âmbito planetário”.

A diminuição da jornada de trabalho, que poderia gerar mais empregos, é um horizonte ainda distante. A descolonização do chamado Terceiro Mundo não gerou a liberdade social e econômica dos seus países. Assim, a relação dos homens com o espaço torna-se um problema renovado para o conhecimento e a ação histórica, estimulando novas identidades sociais e culturais (as quais incidem novas formas de produtos para seus consumidores específicos). Resta, no entanto, o resultado da expansão do capitalismo em escala planetária e da complexidade de relações que esse proporciona.

Muitas dessas problematizações passam pela mídia, pelos sistemas de ensino (em especial pelas universidades e seus cursos de pós-graduação), pelos movimentos sociais, pelos partidos políticos, enfim, pela interação e pelo conflito ente a sociedade civil e a sociedade política, pela luta de classes em nível político e ideológico. No entanto, tem atravessado todaa sociedade apenas em sua aparência, sem atingir a sua essência, ou seja, o modo pelo o capitalismo socializa a produção (no desenvolvimento das forças produtivas), sem, contudo, deixar de se apropriar privadamente do produto do trabalho. Se esse, o trabalho, é negado, ocultam-se a contradição fundamental da sociedade burguesa e a contraposição ou luta/necessidade pela sociedade humana, isto é, pela humanidade socializada (MARX, 1982, p. 3).

Por isso, cada vez mais, é pertinente a adoção de uma metodologia baseada na noção de síntese dialética e totalizante, considerando a História como conhecimento científico, o que permite contrapor a correspondência entre as “novas” perspectivas teóricas e a concretude do mundo atual.  Assim, o materialismo histórico, em particular, e o marxismo, em geral, continuam sendo atuais, tanto como teoria da História quanto como visão do mundo, servindo-nos com instrumentos metodológicos para a análise e a síntese das diferentes formações sociais.

Como diz Sérgio Prieb em seu artigo. “o fato de haver uma grande massa de trabalhadores gerando a riqueza do mundo compromete a hipótese que muitos gostariam de comprovar, isto é, de que a luta de classes não apresentaria mais sentido e, por extensão, de que a teoria de Marx ter-se-ia tornando obsoleta. (…) O que se observa nos dias de hoje, em que predomina a terceira revolução industrial, é a superexploração do trabalho (…) assim, constatada a importância do trabalho nos dias de hoje, torna-se imprescindível questionar sua exploração cada vez maior por parte do capital. Isso conduzirá certamente à percepção da atualidade da crítica de Marx ao processo de exploração do trabalho, bem como à necessidade da superação positiva do capitalismo pelo socialismo. (…) As dificuldades na realização dos lucros da atual fase de predomínio do capital parasitário-especulativo fazem com que as crises no capitalismo, além de se tornarem cada vez mais frequentes, assumam proporções maiores. (…)não basta transportar a obra de Marx, escrita no século XIX, mecanicamente para a atualidade. Deve-se saber interpretar o capitalismo de hoje, bem como suas crises, utilizando como referencial o autor e a obra que melhor souberam expressar a origem e a essência exploratória do modo de produção capitalista: Karl Marx e O Capital. Um espectro ainda ronda o mundo”.

Aparentemente teórico, esse debate torna-se crucial ao proletariado, o qual historicamente têm questionado a sociedade do capital, dando um sentido para a História enquanto processo concreto rumo à transformação revolucionária mundial.

 

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A História cultural como prática e método de pesquisa.

A historiografia regional da Amazônia do início do século XX é marcada consideravelmente pela influência tardia do chamado Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o que pode ser observado nos traços das obras de alguns célebres representantes desta matriz historiográfica com fortes concepções positivistas.

Geraldo Coelho, na obra História e Identidade Cultural na Amazônia afirma que: (…) a historiografia que se produziu até recentemente, seguiu bem de perto o modelo oitocentista criado pelo Instituto Histórico Geográfico Brasileiro. Pesquisadores e historiadores regionais, ou autodidatas ou formados em áreas do saber que não a história, seguiram os passos dos pais fundadores da historiografia brasileira contemporânea” (p. 182).

Em relação a chamada historiografia brasileira contemporânea, Davi Leal, em artigo recente destaca que a partir da década de 1970 esta passa por profundas transformações por conta do aumento da produção acadêmica e da influência de novos pressupostos teóricos e metodológicos (Leal, p. 218).

Pesavento (1995) afirma que a história apresenta-se como uma possibilidade entre outras de captar o passado. Em termos de análises teórico-metodológicos compreendemos que a História vive hoje uma forte influência por parte da chamada Nova História Cultural.

Esta história cultural, segundo Pesavento (1995) pode ser entendida como um desdobramento da história social e esta última é apresentada como herdeira da tradição historiográfica inglesa (principalmente Thompson e Chirstopher Hill), francesa (com o grupo da Nova História com Roger Chartier, Jacques Lê Goff entre outros).

Pesavento (1995) alerta ainda que o elemento catalisador do pensamento contemporâneo são os debates em torno da chamada história cultural, principalmente os relacionados ao sistema de idéias-imagens que dão suporte ao imaginário social.A autora entende a história cultural como uma nova abordagem ou um novo olhar que se apóia sobre análises já realizadas.

Retomando o pensamento de Davi Leal (2007) a respeito da historiografia regional na Amazônia observamos que o autor afirma existir nesta que o mesmo denomina de “Nova Historiografia” novos conceitos e a reformulação de velhos termos. Segundo Leal (2007): “Os estudos que aproximam a história da antropologia se mostraram profícuos, o conceito de cultura, cultura popular, circularidade cultural, a percepção da resistência para além dos aspectos físicos, mas englobando o nível simbólico, permitiram ao historiador explorar novos objetos de pesquisa” (p. 219).

Pesavento (1995) afirma que a tarefa do historiador é justamente utilizar-se de conceitos como instrumento para interrogar o mundo. Esta nova postura do historiador coloca a cultura como uma “instância central” na medida em que a partir desta nova tendência historiográfica a cultura aborda os sistemas de idéias, símbolos e imagens de representação coletiva. Este conjunto é denominado por Pesavento como “imaginário social” (p. 280).

“(…) a tarefa do historiador seria captar a pluralidade dos sentidos e resgatar a construção de significados que preside o que se chamaria de ‘representação do mundo’” (Pesavento, 1995: p. 280)

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História, Natureza e Paisagem

Este texto foi elaborado em parceria com a historiadora Andreza Bianca Silva. Refere-se a notas de estudo de caso da disciplina História, Política, Instituições e Praticas Sociais do Mestrado de História da UFAM.

KEITH THOMAS

A análise de Keith Thomas sobre a relação homem e o mundo natural, tem como ponto de partida os fundamentos teológicos que embasam essa relação. Segundo o autor, a visão tradicional inglesa no tempo dos Tudor e Stuart, era de que a natureza estava subordinada ao homem, sendo que essa relação de subordinação estava pautada no posicionamento de filósofos clássicos e na Bíblia.

Na visão teológica, no momento da criação a relação entre os homens e os animais era pacífica e somente com o pecado original o homem teria perdido o direito de exercer domínio fácil sobre as outras criaturas. Mas, o homem, não teria perdido o direito de dominar a natureza. Então, o discurso teológico foi usado para justificar a autoridade humana sobre o meio natural.

A ciência moderna teria vindo devolver o domínio perdido na criação. O iluminismo teria tornado essa proposição o tema central. Logo, a ciência tinha caráter pragmático e utilitário, o domínio humano sobre o natural. Esse tratamento está embasado na diferença existente entre a humanidade e as outras formas de vida. As capacidades distintivas do homem é a fala, a razão e a livre ação conduzida pela religião. Os homens possuem consciência religiosa.

A fronteira entre o homem e o meio natural é construída a partir de artifícios humanos como moral e religião. A singularidade humana já era de acordo com Thomas, algo defendido desde a antiguidade, de forma polarizada. Esse pensamento foi sistematizado por Descartes, o qual dizia que somente o homem combina tempo, matéria e intelecto. Para Descartes os animais não tinham alma, suas ações eram mecânicas. Visão que antecipou a psicologia mecânica.

Essa separação é estabelecida também pela educação, na qual se busca por meio da “civilidade” e refinamento “elevar os homens acima dos animais”. Os manuais de comportamento como os de Erasmo serviram para construir de forma bem nítida o que é o comportamento humano em distinção aos animais. Além de manter a polaridade existente, para que o limite entre o homem e a criação animal não fosse obstruído. Quem não se enquadrasse nessa lógica, ou seja, não possuísse essência humana era tido como “sub-humano” ou “semi-animal”. A fronteira estabelecida tinha como intuito justificar as ações do homem sobre a natureza.

KAREN LISBOA

O texto de Lisboa toma a obra dos naturalistas Spix e Martius a partir dos preceitos da História Natural, presente no relato da expedição científica pelo Brasil (1817-1820). Segundo a autora o tratamento científico dos objetos naturais é sobreposto a uma discussão “poética da paisagem brasileira”.

Lisboa assinala que a expedição dos naturalistas bávaros Spix e Martius, motivada por missões científicas tinha como mote o estudo da natureza.

O artigo de Lisboa traça duas questões: primeiramente demonstrar a visão de natureza de Spix e Martius, a partir de seus relatos de viagem, posteriormente pretende identificar as bases do ‘projeto civilizatório’ elaborado para a nação.

Segundo a autora o relato dos viajantes deveria coletar informações para: “esclarecer o estado de civilização e história, tanto dos aborígenes como dos outros habitantes do Brasil.” (Lisboa, 1995, p. 77).

A autora afirma ainda que a narrativa constrói-se a partir do deslocamento geográfico e na abrangência dos temas abordados (devido ao que Lisboa denomina de olhar errante) a natureza, portanto, se revela como um dos focos principais de observação.

A natureza dos trópicos era um objeto da pesquisa científica que para Lisboa os naturalistas analisavam mediante sua formação cultural e pelo olhar da História Cultural.

Segundo Lisboa a relação dos autores com a natureza não se reduz ao que se denomina de “taxonomia iluminista e o ávido coletivismo”. Segundo a autora, a observação da natureza é vertida de sentimentos.

A forma de tratar a natureza brasileira lembra Alexander Von Humboldt e Goethe, baseado numa concepção organicista da natureza.A natureza como objeto da ciência torna-se para Martius, semelhante a uma obra de arte.: “Neste sentido pode-se inferir que a descrição do mundo natural passa por uma estetização construída pelo olhar sensível do explorador”. (Lisboa 1995, p. 80)

Lisboa refere-se a Humboldt ao aludir ao tratamento estético dos objetos naturalistas, pois segundo a autora qualquer representação da natureza era um ‘quadro da natureza’”.

A estetização naturalista da Viagem pelo Brasil permite entrever as várias maneiras de sentir o mundo natural. Essas experiências emprestam forma e conteúdo às diferentes paisagens (…) A territorialidade de um Brasil tropical é criada neste espectro de imagens, onde a natureza é interpretada por ambientes paradisíacos e infernais (Lisboa, 1995, p, 81).

Lisboa afirma que o homem representa a lei para a transformação o que possibilita a sua dominação e superioridade do espírito e da mente sob os demais elementos da natureza.

Segundo a autora, Spix e Martius compreendem o processo de civilização como o desenvolvimento da história do homem em cultura, o que consequentemente destrói a vida primitiva das plantas e animais. Ainda segundo Lisboa, esse processo tem o poder de transformar a superfície da terra.

“(…) para Spix e Martius, o grau de dominação do homem sobre a natureza, grosso modo, denota seu estado civilizatório” (Lisboa, 1995, p. 86).

A concepção de natureza engloba o homem e desdobra-se em teorias raciais, emprestando ao europeu a superioridade em relação ao negro e ao índio.

HERMETES REIS ARAÚJO

O Artigo de Hermetes Araújo discute o que o autor denomina de permanência de uma idéia clacissista de natureza no Brasil durante o século XIX.

O autor chama atenção para um movimento de renovação cultural ocorrido a partir dos anos de 1860 e 1870 que se caracterizou no Brasil como o surgimento de uma mentalidade reformista. Entretanto segundo Hermetes Araújo este movimento de renovação cultural não significou uma mudança da idéia de natureza entre a elite cultural e política.

Nas palavras de Hermetes Araújo:

’Ciência’, ‘raça’ e ‘civilização formaram um conjunto de crenças e valores filosóficos que marcou a obra de intelectuais, políticos e literatos, cujo pensamento, naquilo que se refere a uma crítica em profundidade da realidade nacional, alcançou grande repercussão até a década de 1920” (p. 152)

Prevalece no final do século XIX, segundo Hermetes Araújo uma visão de natureza que evoca uma fecundidade divina da terra, que lembrava as idéias fisiocráticas do século XVIII, em virtude do que o autor chama de “vocação agrária” do Brasil.

Essa concepção da natureza transpassada pela visão de fecundidade divina, no caso do Brasil, era preciso segundo Hermestes Araújo, apenas fazer uma boa gestão dos recursos ou das chamadas forças naturais. Como Araújo afirma: “No caso do Brasil, tratava-se da boa gestão da natureza por meio do extrativismo e da agricultura.” (p. 152).

Hermetes Araújo afirma que a partir das descobertas científicas da mecânica clássica o homem podia remontar as forças que possibilitavam a produção. Segundo o próprio autor, o mundo como motor não elimina a idéia de uma natureza portadora de uma fecundidade infinita, mas o homem pode recriar essas forças diminuindo sua dependência.

Esse domínio da força motriz segundo o autor:

(…) forjou na literatura, notadamente no Romantismo, e em especial no Naturalismo, uma imagem do homem e do mundo impregnado de uma concepção histórica, deslocando-o da imutabilidade como eram concebidos na representação clássica para uma temporalidade genética e evolutiva. (p. 154).

No Brasil, segundo Hermetes Araújo, o progresso estava baseado na idéia de gestão das forças naturais, existindo no interior da sociedade uma concepção religiosa e qualitativa de uma natureza mecânica que ainda se pautava numa idéia de que o progresso poderia acontecer mesmo com uma natureza cíclica e trágica, que o autor denomina de “hibridismo entre concepção de natureza e progresso”.

Para analisar a mudança da visão do que o autor analisa como fisiocracia brasileira à termodinâmica, o autor busca compreensão dos fatos a partir da biografia do engenheiro André Rebouças, que segundo Hermetes Araújo, talvez tenha sido o primeiro homem negro do mundo a possuir um diploma de engenheiro.

Segundo o autor, suas atividades foram bastante diversificadas, sendo adepto de um fervoroso progresso técnico e de um cosmopolitismo liberal.

Segundo Hermetes Araújo: “Para Rebouças, a ação racional do engenheiro não era aquela fé dedutiva do positivismo. (…) possuía uma visão demiúrgica da engenharia moderna.” (p. 159)

Ao final do texto, o autor analisa a expansão da economia cafeeira como uma nova fase econômica, política, social, empresarial e tecnológica. Nesta época segundo Hermetes Araújo a ciência e a tecnologia começaram a vencer as resistências impostas pelo território, a partir dos conhecimentos produzidos por expedições científicas e de exploração, formada por brasileiros e estrangeiros.

COMENTÁRIO.

A Obra de Karen Lisboa, Viagens pelo Brasil de Spix e Martius: Quadros de Natureza e Esboços de uma Civilização e a de Hermetes Reis de Araújo, Da Mecânica ao Motor: a Idéia de Natureza no Brasil no final do século XIX, demonstram similitude ao se reportarem ao discurso de necessidade de dominação da natureza e vislumbrarem no século XIX projeções civilizadoras para o Brasil.

Em determinada passagem ao se referir ao período vivido por André Rebouças, Hermetes Araújo analisa de certo modo a cultura brasileira, como caracterizada pela lenta transição do imaginário da vocação agrária para a afirmação do progresso científico, da indústria, e do trabalho livre. (2001, p. 160)

Karen Lisboa (1995) ao analisar a obra de Spix e Martius observa a presença de um discurso que liga a miscigenação ao progresso civilizatório no Brasil quando afirma: “A idéia da miscigenação como propulsora do processo civilizatório esboçada na Viagem pelo Brasil acaba por adquirir relevância no meio dos pensadores brasileiros (…) Martius reitera que a mistura de raças é uma vereda segura para a civilização.” (p. 88)

Ao se referir a uma renovação cultural brasileira no período de 1860 e 1870, Hermetes Araújo afirma a ligação direta entre ciência, raça e civilização, tal qual exposta acima na obra de Lisboa.

’Ciência’, ‘raça’ e ‘civilização formaram um conjunto de crenças e valores filosóficos que marcou a obra de intelectuais, políticos e literatos, cujo pensamento, naquilo que se refere a uma crítica em profundidade da realidade nacional, alcançou grande repercussão até a década de 1920” (p. 152)

Hermetes Araújo ao aludir ao que denomina de fisiocratismo brasileiro afirma que permanecia na classe senhorial brasileira, uma concepção religiosa e qualitativa sobra a natureza, como podemos observar: “A permanência, na sociedade senhorial brasileira, de uma concepção religiosa e qualitativa no seio de uma natureza mecânica e quantitativa não significou obstáculo à crença de que o país poderia progredir (…)” (p. 156).

Karen Lisboa ao se referir ao foco do mundo natural e sua relação com o homem afirma que: “(…) na concepção de Spix e Martius, a natureza é incompreensível sem o homem,pois é ele a maior obra da Criação da Terra. Para ele convergem todos os outros seres (…)” (p. 85)

Na obra O Homem e o Mundo Natural de Keith Thomas o autor explicita a existência de um discurso de supremacia do homem sobre a natureza a partir de uma concepção teológica: “Na Inglaterra dos períodos Tudor e Stuart, a visão tradicional era que o mundo fora criado para o bem do homem e as outras espécies deviam se subordinar a seus desejos e necessidades.” (p. 21) E mais a frente: “A autoridade humana sobre o mundo animal era, assim, virtualmente ilimitada”. (p. 26).

Keith Thomas afirma que na época acima descrita a teologia fornecia os alicerces morais do predomínio do homem sobre a natureza. (p. 27).

Ao se referir a chamada Civilização Humana, Keith Thomas afirma que esta: “(…) era uma expressão virtual sinônima da conquista da natureza. O mundo vegetal sempre foi fonte de alimento e de combustível; o Ocidente, por esta época, caracterizava-se por sua dependência excepcionalmente alta dos recursos naturais (…)” (p. 31)

Ao se referir ao ideário de progresso, Hermetes Araújo afirma que: “(…) apesar da introdução de um ideário de progresso, atribuindo exclusivamente à ação dos homens a fabricação do seu próprio mundo, no Brasil da segunda metade do século XIX a natureza ainda era pensada à maneira da época clássica.” (p. 156).

Ao falar dos propósitos da ciência, Thomas afirma que o fim da ciência era devolver ao homem o domínio sobre a criação que ele perdera. Segundo Thomas: “Para os cientistas formados nesta tradição, todo o propósito de estudar o mundo natural se resumia em que ‘a Natureza, desde de que conhecida, será dominada, gerida e utilizada a serviço da vida humana’”. (p. 32). Nesse sentido é que se orientavam as pesquisas sobre História Natural.

Karen Lisboa ao se referir aos objetivos dos viajantes Spix e Martius também se refere a chamada História Natural e os progressos das ciência:

A maneira de perceber e observar o mundo natural mediava-se por sua formação cultural (…) a natureza dos trópicos era um objeto de obstinada pesquisa científica, que deveria ser dissecado sistematicamente pelo olhar da História Natural. (p. 78).

Em outro trecho Lisboa afirma que os preceitos da História Natural visavam ocupar-se de toda a natureza e a taxonomia dava margem para a reflexão filosófica onde: “(…)o grau de dominação do homem sobre a natureza, grosso modo, denota o seu estado civilizatório”. (p. 86)

Acerca da produção científica Hermetes Araújo destaca uma série de avanços na mecânica e termodinâmica que segundo ele: “(…) produzia em escala crescente aquilo que, em épocas anteriores, somente se encontrava já formado na natureza.” (p. 153). Demonstra assim que os avanços científicos da época fornecem a possibilidade de supremacia do homem sobre a natureza.

Hermetes Araújo ao se referir ao motor afirma que:

O mundo como motor não elimina a idéia de uma natureza portadora de uma fecundidade infinita. No sistema mecânico, a natureza é fecunda porque a força motriz já está dada, (…) Na termodinâmica, as fontes existentes para a produção de energia são também consideradas inesgotáveis, mas não se trata apenas de forças a serem domesticadas e, sim, de forças a ser produzida numa natureza transformada em reservatório.” (p. 154).

Keith Thomas afirma que as dissertações eruditas do período analisado em sua obra, tinham o objetivo a distinção central entre homens e animais, sendo tentativas de restringir os aspectos animais da natureza humana. (p. 43).

O autor afirma:

“Ao traçar uma sólida linha divisória entre o homem e os animais, o principal propósito dos pensadores do início do período moderno era justificar a caça, a domesticação, o hábito de comer carne (…) Mas essa insistência tão grande em distinguir o humano do animal também teve conseqüências importantes para as relações entre os homens. Com efeito, se a essência da humanidade era definida como consistindo em alguma qualidade específica, seguia-se então que qualquer homem que não demonstrasse tal qualidade seria sub-humano ou semi-animal. (Thomas, p. 49).

Segundo Thomas os séculos XVII e XVIII ouviram discursos sobre a natureza animal dos negros e os índios americanos eram descritos de forma semelhante como podemos notar na passagem abaixo:

Os séculos XVII e XVIII ouviram muitos discursos sobre a natureza animal dos negros, sobre sua sexualidade animalesca e sua natureza brutal. De modo geral, os índios americanos não eram vistos dessa forma, mas, às vezes também eram descritos em linguagem semelhante. (p. 50).

Essa concepção para Keith Thomas legitimava os maus-tratos aqueles que supostamente viviam em condição animal. A ética da dominação humana removia os animais da esfera de preocupações do homem. O autor esclarece ainda: “Mas colônias, a escravidão (…) constituía uma das formas de tratar os homens vistos como bestiais (…)”

Karen Lisboa ao se referir a visão de perfectibilidade dos homens, declarado no relato de viagem de Spix e Martius afirma que estes ao se referirem a idéia de perfectibilidade civilizatória, preocupam-se em esclarecer a suposta decadência dos índios, baseando suas afirmações no que a autora afirmar ser um racismo transparente que embasa a miscigenação racial.

Segundo Karen Lisboa: “Spix e Martius procuram responder às indagações armando-se dos pressupostos da História Natural: ao lado de‘muitos outros seres da natureza’ os índios americanos estão ‘destinados a decompor-se” (p. 87)

Mais a frente a autora esclarece:

(…)O europeu, ou seja, o homem da raça caucásica – dotado de um ‘desenvolvimento superior dos órgãos e forças intelectuais’- deveria sobrepor-se ‘de modo todo específico, tanto somática como psiquicamente’ ao negro (raça etiópica) e ao índio (raça americana). (p. 87)

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A ação do prefeito: Uma reflexão.

“Tu te tornas responsável por tudo aquilo que cativas.”

Sábias e célebres palavras de Saint Exupéry que podem servir para a atual conjuntura vivenciada por nós cidadãos de Manaus.

O nosso prefeito Amazonino Mendes, nesta semana suscitou velhos fantasmas que outrora muitos pensavam haviam sido exorcizados. Em cenas lamentáveis o Negão, como é chamado pelos seus pares, destratou uma moradora de uma comunidade de risco. Além de exigir que estes moradores saíssem da área, sem no entanto apontar para onde eles deveriam ir, de maneira histérica o Negão, esqueceu que também não nasceu em Manaus (já que ele é de Eirunepé), mandou de maneira cínica a moradora “morrer”, ou seja, afirmou categoricamente que pouco se importava com a situação daquelas pessoas e questionando sobre a origem dela (do Pará) exclamou: “Então tá explicado.”
Tenho pena do Prefeito Big Black. Hoje ele vive o dilema de Maquiavel: Afinal o que vale mais? ser amado ou ser temido?
O ódio as camadas sociais menos favorecidas não vem de hoje. É como diria um professor meu: “É histórico meu querido.” Já no seculo XIX, forjou-se a partir da ideologia das chamadas classes perigosas a concepção de que o pobre é portador de males: Doente, criminoso e preguiçoso. É sobre essa ideologia que se pautou todo o embelezamento das cidades brasileiras da virada do século XIX para o XX: A célebre Belle Epoque. Notemos que em Manaus as áreas centrais tiveram planejamento arquitetônico projetado a partir dos modelos europeus. Às classes perigosas sobraram as áreas periféricas (não muito diferente de hoje em dia).
Estamos em amplo debate a respeito dos projetos para a Copa do Mundo de 2014. Nossos governantes apontam a maneira mais ordeira de como usar os recurso do PAC (isso mesmo o Programa de Aceleração do Crescimento) para as obras em infra-estrutura, transporte e investimento no setor de serviços. Alguns políticos até de esquerda, cobrando a execução do bilionário projeto do Monotrilho (enquanto você anda nos ônibus lotados e caindo aos pedaços e a dengue grassa sobre nossas casas).
Estes embelezamentos e investimentos não são para os socialmente da periferia. É como dizem alguns alunos meus:
“Prof, é só para a diretoria, é só para os chegados.”
Podemos a partir do que ocorreu deduzir quem o prefeito (e as pessoas partidárias de suas idéias e interesses) odeiam: Odeiam não o retirante nordestino, o caboclos interiorano que invadiu o capital ou mesmo nossos vizinhos paraenses. O ódio aqui é de classe. É a volta da ideologia das classes perigosas. É preciso controlar, vigiar e punir os desvalidos de toda a sorte.
E afinal quem Amazonino ama? Claro os mega-empresários do distrito, seu eleitores mais abastados e seus assessores-bajuladores de plantão. Talvez a esta hora ele esteja cantarolando a música creep da banda Radiohead:
“What the hell am I doing here? I don’t belong here” (Que diabos estou fazendo aqui? Eu não pertenço a este lugar)
Qual nosso lugar nisso tudo? Nosso camarada Chê Guevara afirmou certa vez: “Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.
Como professor, como cidadão, como Amazonense com sangue de nordestino e em nome dos meus familiares que ainda hoje moram no interior do Estado. Como filho da classe trabalhadora repudio veementemente a atitude xenófoba do nosso prefeito.

Encerro trazendo as palavras do meu saudoso avô: “Só temos medo do que não conhecemos.”
Tenner Inauhiny de Abreu
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Professor de História;
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Mestrado em História da UFAM

Núcleo de Pesquisa Política, Instituições e Práticas Sociais (POLIS)
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